segunda-feira, 28 de maio de 2012

ANGOLA, BRASIL E A LUTA DE CLASSES

Eu sou do teatro. Minha religião é o teatro. Dionísio é o meu deus. E quando vi todo mundo lá no teatro, foi padre, foi o movimento negro, tudo, vi que o meu amor por ele era velar pela sua memória, pela grandeza dele. A frase acima é de Zé Celso Martinez, dramaturgo brasileiro referindo-se a um momento histórico no Brasil da sua luta pela continuidade e preservação do Teatro Oficina. Utilizo, mais uma vez o recurso de grafá-la sem aspas por que como já escrevi em outro artigo (Cresci, mamãe, cresci 26/07/2007– www.adrianopereira.flogbrasil.com.br ), utilizando uma frase de Foucalt para responder ao velho Galvão, o texto assemelha-se tanto ao que penso que preferi usar assim. Mas os tempos são outros. Hoje Galvão é um velho amigo, a quem quero muito bem e não ouso desrespeitar os seus 76 anos. Ao contrário, quero muito aprender. Este texto carece também de um outro preâmbulo. Quando Tato Drumond esteve no Março Mulher que realizamos na MaCRo instou-me a escrever sobre o que estávamos realizando. Respondi-lhe que ainda não havia tempo. Que escreveria um dia, mas só daqui a 30 anos talvez, quando tudo já estivesse mais maduro e menos turvo. Hoje, Dia Internacional da África, daqui de Luanda, do outro lado do mar, há milhas e milhas distantes, depois de termos, parafraseando outro poeta da minha geração “a cada hora que passa amadurecido dez semanas” vejo da janela o mar e tento estar mais próximo, apesar das distâncias que nos separam. Movido pela saudade, escrevo-os. Luanda lembra-me o tempo todo Salvador. Na porta do hotel, um dos funcionários que já está com férias marcadas para o Rio de Janeiro em julho deste ano, diz-me que eles pretendem ser como o Brasil. A todo canto têm obras. É um país em construção, erguem-se prédios e há canteiros, tapumes em todas as direções. O hotel que nos hospeda foi inaugurado no natal do ano passado. É suntuoso. 4 estrelas. Seus proprietários: brasileiros. Em sua fachada tremulam 3 bandeiras: Angola, Brasil e Portugal. Um outro prédio exibe as bandeiras de Angola, Brasil e Estados Unidos. Guinchos, guindastes pelas ruas, por cima dos edifícios, à toda parte. O Elinga, teatro/grupo realizador do 2 Festival Internacional de Teatro e Artes em Luanda é uma construção antiga, na verdade uma casa adaptada. Não foi pensado como Teatro, mas a vontade e determinação de seus participantes o transformou num espaço agradável e possível de abrigar espetáculos com uma plateia sentada em 150 poltronas, bem como uma galeria de exposições, serviço de bar e pista de dança onde DJs dividem o espaço com percussionistas que assemelham-se ao batuque tão conhecido nos terreiros de candomblé da Bahia. É do Elinga que quero falar. E peço desde já desculpas, pois posso estar escrevendo um monte de bobagens, mas que são particularmente minhas primeiras impressões às quais gostaria de dividir e dialogar com os companheiro/as do Brasil, da Bahia, de Valença e da MaCRo, nossa casa de cultura. O Elinga, cujo significado em umbundo é ação/exercício, tem 24 anos. Após a tragédia da guerra, talvez tenha sido a forma de celebrar, refletir e, sobretudo, reconstruir a vida que os angolanos encontraram. Tendo à frente José Mena Abrantes, este diretor altivo e de uma energia contagiante, só após 11 anos constituiu-se como Associação que desenvolve um trabalho em 3 vertentes: o teatro, as artes visuais e a formação, num cruzamento destas. Ao longo destes anos, montou algumas dezenas de peças de teatro de autores nacionais ou estrangeiros, esteve presente em 8 países, entre eles o Brasil e realiza pela 2 vez o Festival Internacional de Teatro, recebendo desta vez grupos do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Namíbia e Portugal. Abriga também em uma de suas salas um criativo ateliê do simpático estilista Muamby Wasaky. Suas peças são feitas com material reciclado. De um saco de lona surge um casaco com motivos chineses. Outro exibe nas costas o peso de seu país: 150kg. Suas janelas proporcionam uma visão privilegiada do mar, não sem antes visualizarmos um enorme canteiro de obras onde está sendo construído um enorme edifício. Aí fico sabendo que mais do que perder a belíssima paisagem, o Elinga corre o risco de ser derrubado para virar estacionamento do hotel que está a ser construído. Numa das noites de espetáculo, uma constrangedora britadeira rompia com seu barulho a pureza de quem estava em cena. Já passavam das 21 horas, mas num país que não espera para crescer, pouco importa que guinchos passem por cima do telhado do teatro ou que operários estejam a trabalhar até esta hora. Mas o Elinga persiste, resiste, sobrevive, contradiz-se pela força e obstinação daqueles que o frequentam e sustentam. E foi penetrando neste espaço/tempo que tive uma epifania e a cada passo que dava era como se estivesse na MaCRo e numa sala de espelhos ou num caleidoscópio sem órbita cada rosto/momento veio à tona... Adriano Pereira, Luanda, 25/05/2012.

terça-feira, 22 de maio de 2012

LEGALIZA DILMA VEZ!

Caralho, buceta/ quem não pula é careta! - Não, não estou na Bahia. Estou na Avenida Paulista e o carnaval está longe. Nosso voo para Angola estava marcado para hoje, 19, mas uma certa Maria colocou o dedo e a providência nos proporcionou outra viagem. Descemos no vão do MASP, concentração para a Marcha Mundial da Maconha, desta vez liberada e garantida pelo STF. Das mais diferentes partes e tipos, os malucos vão se encontrando. É uma festa democrática. Com direito a palavra de ordem e músicas: Eu sou maconheiro, com muito orgulho, com muito amor... A polícia também está presente, para garantir a segurança dos manifestantes e, por que não, receber provocações de uma juventude ousada “Ei, polícia, maconha é uma delícia!” Cartazes, faixas, camisetas, panfletos sendo distribuídos pela organização. Sim, existe uma organização em rede, formada por um coletivo de entidades que dão sustentação à realização da marcha nas mais diversas cidades. A próxima será em Diadema e o convite é feito para fortalece-la já que, mesmo com a garantia da Justiça, o poder local quer se colocar acima da lei e impedir sua realização. “E se você pensa que todo mundo maconheiro não presta/que é safado, tem que tomar tiro na testa/pense bem... Mais um exemplo de organização e respeito. Todos sentam no chão para ouvir um papo, não por acaso, chamado de “fazendo a cabeça”. Como convidado o professor Henrique Carneiro, historiador da USP. E quem disse que maconheiro não tem memória, nem a maconha história? Numa aula pública o professor desfaz mitos e preconceitos. Conta-nos a milenar e múltipla utilização da cannabis, seu uso medicinal, seu papel, sua riqueza. “a maconha era utilizada em pelo menos 3 viagens: nas cordas e velames, no papel utilizado para a escrita e nas viagens psicodélicas em seu uso recreativo. Assim, com tanta utilidade, o capital a proibiu”. Foi mais além: “o colesterol, o álcool, a gordura saturada tem causado mais danos à saúde e mortes do que a maconha, no entanto ninguém criminaliza nem chama os vendedores e produtores destes de traficantes nem assassinos. Por que tanta violência com uma planta?” “Ah, meu bom juiz, meu bom juiz...” – o samba malandro pede passagem para saudar José Henrique Torres, presidente da Associação de Juízes pela Democracia, que começa com uma afirmação incendiária “o crime não existe! Explico: em ocasiões dadas, por razões politicas ou econômicas, a classe dominante decide criminalizar determinadas práticas ou condutas. Isso muda com o tempo e a correlação de forças. O fato é que a guerra contra as drogas fracassou. O combate tem que ser travado agora não por uma minoria, mas por qualquer pessoa que defenda a democracia e os direitos humanos. Essa é uma luta de todos”. Numa analogia mais que adequada a Castro Alves, poeta da liberdade.... Marchem! Então a avenida foi tomada por uma mancha verde. Não, não era a torcida do palmeiras, mas corintianos, paulistas, bêbados e baianos se misturando e se inebriando seguindo uma tora branca que visivelmente soltava uma fumaça esverdeada. Às 16:20 uma queima de fogos anunciou a partida da marcha. O prenúncio de uma nova era começou. A alegria e emoção eram as palavras de ordem. Os tempos definitivamente são outros. É nessa hora que encontro um velho amigo que num abraço, entre lágrimas, gritos e pulos tenta explicar tamanha euforia: “Conseguimos! São 3 anos de luta, debaixo de tiros, cassetetes, borrachadas e gás lacrimogêneo. Ano passado éramos 500. Esse ano tem mais de 5000...” – claro que a policia subestimou em um número bem menor. Cerca de 2000 segundo dados oficiais. Mas de qualquer forma, é algo que não dá para esconder, reprimir ou simplificar. E não é apenas um bando de jovens que querem apenas o seu direito de fumar maconha (como se isso não já fosse algo importante). A marcha é, sobretudo pela liberdade, pela paz, pelo respeito. O mesmo respeito que vi de senhoras nas portas que recebiam flores dos que marchavam, ou de lençóis, acenos e aplausos que eram vistos e ouvidos pelos marchantes de cima dos apartamentos. Como gritavam os manifestantes e a grande bandeira verde que abria a passagem dos manifestantes: Dilma Roussef, legaliza o back! Legaliza dilma vez!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

MAKTUB – Primeiro sarau na MaCRo


Esqueça os mortos, eles já não vivem mais! – cantava David Willyan ao violão numa espécie de aquecimento/passagem de som dando apenas uma mostra do repertório que desfiaria na noite que estava se iniciando. Aliás, no improviso, uma banda surgiu para animar a noite formada além de David, por Isaias, Mateus Magyver, Fred Gazo e Gilberto marcando com um balde. Seu nome MaCRo-avélicos!
De repente, um coro de vozes femininas:

Quando um homem tem uma mangueira no quintal
Ele não é goiaba
Deixa ele lhe mostrar
Bom dia, boa tarde!
No seu pomar
"O que há de mal"
Poder brincar de amar
Sem pensar no amanhã
Sem nenhuma vergonha
Numa cara de pau
Aproveitar um samba
Numa tarde vazia
Ter um siricotico
Ter uma aventura...

Eram Gerusa, Maibe, Leidy e as demais que emprestaram suas vozes para demonstrar a belíssima composição de Vanessa da Mata. E se estamos no quintal, ele pode também ser um terreiro, propício para um baião puxado mais uma vez pela MaCRo-avélicos, dessa vez com Isaias nos vocais. Foi o suficiente para o primeiro poeta baixar no terreiro com uma trouxa de livros dos poetas valencianos, antes de declamar os seguintes versos emprestados de Antônio Vieira:

A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó
E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares.

Ao lado, uma flor branca se destacava. Saía do cabelo de Violeta Martinez. Num improviso, sob uma luz vermelha, um poema de Celeste Martinez foi declamado:

Vinte e quatro horas são suficientes para viver não mais que isto.
E cerro os olhos e o tempo muda sua cronologia.
Novamente abro as janelas, mais vinte e quatro horas de recomeço
E mais algumas horas para o sono.
E principio e acabo.
E nunca a morte.
Onde estará?
Em que bar deglute o aperitivo encorajador para a labuta pródiga do embarque de frios?
Sim, vinte e quatro horas são suficientes para ver a aurora,
O ocaso,
A chuva,
A brisa,
O sol,
O mar,
O rio.
Vomitar palavras sujas e corrigi-las.
Pedir desculpas,
Voltar a ser,
Terminar o script,
Bailar com a vida.
Vinte e quatro horas são necessárias para que o homem viva na urbe
E vá ao
Campo.
Vinte e quatro horas, para sentir-se,
Despir-se,
Olhar o espelho, porque dele não podemos fugir.
E são vinte e quatro horas correndo, acomodando os sentidos a tristes figuras.
Ouvindo reggae, axé music,
Jamais ouvindo Bach
Vinte e quatro horas para purificar os sentidos.
Beber da água.
Beber do riso e transformá-lo em lágrimas de chuva que caem ao
ritmo das
vinte e quatro baladas do sino.

Oh gira, deixa a gira girar... entre palmas e vozes um “Deus negro” foi invocado. Maria Cláudia se fez ouvida através da poesia “ocupação cultural”. Se nessa cidade todo mundo é de Oxum, ela mostrou toda a sua beleza como uma dama da noite e enviou bênçãos que desciam do alto da colina. Eram os versos de Otávio Mota:

Quando me largo nesse adro largo
Quando me lavo nessa água maga
Essa festa nua,
Se faz mais minha e sua.
A padroeira é nossa
Minha visão, promessas...
E tudo se enfeita,
Bandeirolas de papel
Bambuzais formando arcos
Nossas mãos, pernas e marcos
Vozes da aflição
Na procissão
Se acalmam, esperam a vez
E cantam o terço, a ladainha
E a fé se agiganta
Dos pés aos paralelos.

Lá vai a procissão!
Lá vão os penitentes
Rezando alto, baixo ou mudos
Uma vez por ano
por todos os pecados...

Isaias abriu uma bíblia e passou a ler trechos do evangelho de Lucas, justamente na passagem onde Jesus chegava ao templo e eram-lhe dadas as escrituras do profeta. Parecia uma contradição em termos, mas Adriano, que não tinha nada de cristo, recebeu o livro e continuou a leitura:
- O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano de graça do Senhor.
Devolvendo o livro, ainda gritou: - Hoje se cumpriu esta profecia!

Numa celebração, todos comeram, beberam e se abraçaram. De repente, a paz invadiu os corações, as cabeças se encheram de liberdade e foram ouvidos acordes de um violino tocado por Luiz Cláudio. Por fim o velho Gilberto encerrou a noite brindando a todos com os versos do poeta Ricardo Vidal:


Não quero o amor, mas o Amar.
Não quero o amor enquanto ente
Ontológico de ficções e teses.
Quero o amor como ação humana:
Frêmito de virgem e soluços de orgasmos,
O toque de pele e a palavra
Cruzando as nuvens para encontrar-se
Com a amada distante.
Não quero o amor como ser teológico
Distante da vida e da arte.
Quero o amor que surge do pincel
Massageando uma aquarela
Ou da lira vibrando sonetos eróticos.
O Amar que eu quero é dos dedos d’amada
Fazendo cafuné depois do prazer.
O Amar que eu quero é do verbo novamente
Se fazendo carne, num novo Ato da Criação…

Como se não bastasse, com a devida licença poética, um outro poema foi re-escrito e relido sob um solo de blues tocado por Mateus:


Ocupamos as nossas ruas
Com a glória dos sonetos,
Batuques e tambores.
Utilizamos a arma
Da cultura popular
Para ferir o peito daquele que
Não acredita que a massa tem sim,
A capacidade da transformação
singular da arte
que está escrita no DNA do brasileiro.

Derrubamos os muros
Que separam a prosa do verso,
O Rock do Pop,
Reggae ao Funk,
Do samba a Bossa Nova.

E comungamos a Santa Hóstia Cultural.

Onde o que conta é a minha,
A sua, a nossa expressão,
O nosso fazer cultural.

Um dia hei de ver as estátuas de mármore
Que reinam solitárias e inertes
Nos jardins da minha terra
Uma por uma, com suas cabeças
Espatifadas no chão.
Num ato de repúdio ao observar seu povo
Que por tanto tempo se fez de tolo
E hoje, deu seu grito de libertação.
A libertação cultural.

MAKTUB – está escrito um breve registro do último sarau realizado pel’OPECADO, na MaCRo, no último dia 26 de Novembro. De lá, saíram tod@s com o espírito/mente/coração/corpos renovados para 2012.
Que assim seja!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

HÁ VAGAS PARA RAPAZES DE FINO TRATO – ÚLTIMA APRESENTAÇÃO EM 2011


Após subir aos palcos do Teatro Dona Cano, Cine Teatro Vitória, Centro de Cultura de Valença e arrancar aplausos na Semana de Cultura em Gandu a peça “Há vagas para rapazes de fino trato” encerra sua temporada em 2011 apresentando-se no próximo sábado, 03 de dezembro às 20 horas, na MaCRo.

A peça se desenvolve a partir do encontro entre Paco e Tonho, dois rapazes sem qualquer afinidade aparente, que passam a dividir um mesmo quarto de pensão em Salvador. Tonho é o moço sonhador que deixará Valença para realizar seus sonhos na capital; Paco é o soteropolitano porra-louca, desencantado e perturbador. Num jogo de estranhamento versus sedução, dominação vs. cumplicidade, esperança vs. desengano, os personagens se envolvem numa trama tensa que ora os polariza, ora os aproxima.


Livremente inspirado em Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, Há Vagas para Rapazes de Fino Trato resgata e dá novos contornos psicológicos à dupla criada pelo dramaturgo, vivida nesta montagem por Adriano Pereira (Teatro Nu) e Cadu Oliveira (Geração Coca-Cola), que também assina o texto. O espetáculo é dirigido por Juliano Britto.

Com mais esta produção OPECADO – Oficina Permanente de Criações Artísticas Deus Omni mostra mais uma vez sua versatilidade propondo um espetáculo contextualizado com a contemporaneidade uma vez que acontece no domingo em Valença a III Parada Gay, além de inaugurar um novo espaço de apresentações.



A Casa de Cultura MaCRo, fica situada à Praça Barão do Rio Branco, nº 08, bairro de São Félix e foi inaugurada recentemente após o precoce passamento da atriz, poetisa e militante cultural Maria Cláudia Rodrigues. Desde sua pré inauguração no mês de Julho, tem se consolidado como um importante espaço cultural da cidade realizando reuniões e encontros com artistas dos mais diversos segmentos.

Como atividade de formação, foi realizada entre os meses de setembro e outubro a Oficina de Inspiração Teatral, ministrada por Suelma Costa (Amêsa, No outro lado do mar) quando atores e atrizes valencianos puderam realizar um rico momento de intercâmbio e aperfeiçoamento de técnicas teatrais.

Em Outubro, ocorreu também na MaCRo a primeira Ocupação Cultural, sarau poético musical (www.ocupacaocultural.blogspot.com ) quando foi lançado o projeto DEIXE SUA MARCA onde empresas e entidades estão sendo convidadas a participar. Já participam da iniciativa a Câmara de Vereadores, A Casa Lacerda, Cut Bahia, Aplb Sindicato,Art e Foto, Grafica Prisma e Jornal Valenca Agora.

Em Janeiro, a MaCRo abrirá novos cursos e oficinas entre eles o Curso de Cinema com Araken Galvão, uma oficina de web vídeo com Cadu Oliveira e uma oficina de cordel com Chico Nascimento.


Ficha Técnica
Elenco: Adriano Pereira e Cadu Oliveira
Direção: Juliano Britto
Texto: Cadu Oliveira
Trilha Sonora: Mateus Magyver

Serviço
O que: Espetáculo teatral Há Vagas para Rapazes de Fino Trato
Onde: Casa de Cultura MaCRo ( Maria Cláudia Rodrigues) – Valença/BA.
Quando: 03 de dezembro de 2011, sábado, às 20h.
Quanto: 10 (inteira) e 5 (meia / antecipado)
Realização: OPECADO

terça-feira, 22 de novembro de 2011

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA - ê dendê: olhares sobre a costa do dendê


Será que nos ilhamos, quando olhamos? É a pergunta que me faço, com a câmera entre as mãos e os olhos ansiosos por decifrar e grafar luzes e mundos. Acabo de subir neste barco imaginado que navega a Costa do Dendê há quatro anos, pesquisando e mapeando artesãos da região.

Daqui do barco, eu vejo: olho não é ilha. Primeiro, porque vejo com todo o corpo. Vejo com os ouvidos que escutam novos sotaques e contam velhas histórias, com mãos que tocam outra areia e plantas inéditas, vejo com os pés e os poros, com a palma e o paladar. Como a câmera é uma extensão do olho, fotografo com todo o corpo, que talvez seja mais simples e sincero que o romantismo de fotografar "com toda a alma".

Mas não é apenas com meu corpo que fotografo. Fotografo com muitos corpos, porque o olhar do outro sensibiliza e modifica meu olhar. As fotos tomadas durante os dias de trabalho são projetadas na rua e vistas pela comunidade ao final da visita a uma determinada localidade. Assim, quem é fotografado, de alguma maneira, também fotografa; a câmera deixa de ser ostentada para ser ofertada. O artesão ensina o artista a refazer seu olhar com a naturalidade de um pai que ensina um filho a tecer.

Por isso, falamos em olhares, no plural. Os olhares desatam as ilhas, e nos reconhecemos no espelho d'água. A rede de "Olhares sobre a Costa do Dendê", como rede de pesca lançada ao mistério de rio ou mar, para desmistificá-los, se faz cada vez mais ampla e imbricada.

Marília Palmeira
(Fotógrafa)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

NESSA SEXTA TEM CINEMA NA MaCRo


Para os amantes da 7ª arte, numa parceria com o campus XV da UNEB em Valença, estamos iniciando nesta sexta 04/11, às 18 horas, um projeto de exibição de filmes (curtas e longas).
O projeto ainda está em construção e aberto a sugestões.

Nesta sexta, nossa programação se iniciará com a exibição do filme alemão BAGDÁ CAFÉ

Segue abaixo uma breve resenha sobre o filme:

Bagdad Café (1988)

O filme é sobre a amizade, que surge entre duas mulheres totalmente diferentes: Jasmin, alemã/ branca/rica e, Brenda, americana/negra/pobre, têm em comum o fato de terem sido abandonadas pelos seus respectivos maridos;
Jasmin é abandonada numa estrada pelo marido, então ela vai até uma pensão/ hospedaria, que fica numa região chamada “Bagdad Café”, cuja dona é justamente Brenda; essa região se localiza entre a Disneylândia e a cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos; as duas no começo se estranham, mas ficam, aos poucos, muito amigas; destaque para a belíssima participação coadjuvante de Jack Palance, como Rudy Cox, o novo interesse amoroso de Jasmin;

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CARTA RASGADA EM RESPOSTA A MARIA SUELMA


( para ser lido ao som de Gal – Fatal, cantando Luz do Sol)

Era agosto e eu ainda vivia um inverno que começou em março, como poetizou Juliano num verão de rachar/ Que faz o mundo mais friorento/ Do que os homens queriam suportar...
Aí apareceu Maria. Outra Maria. Branca de pele, com suas contas de logum edé para ensinar-me a beleza de todos os matizes, superando a dicotomia do preto-branco. Mulher, com sua sensibilidade, a demonstrar-me que um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria/ que o mundo masculino tudo me daria/ do que eu quisesse ter...
Com simples toques, re-educou-me a reconhecer meu corpo/mente como unos re-significando sons e palavras em várias velocidades, rotações. Seu silêncio falava-me tanto... e apresentou-me três p(r)o(f)etas: Grotowsky, Brook, Artaud, com quem eu pudesse dialogar nos momentos de solidão e tirar minhas próprias conclusões do que estava escrito. Maktub.
Maria me deu régua e compasso...Lentamente ela foi me re-ensinando a encontrar a vida/poesia das borboletas e foi até estranho, a gente nem deu conta/ talvez na outra ponta, alguém pudesse pensar/ menino vagalume, flor, menino estrela, a brisa mais forte veio te buscar/ pra temperar os sonhos e curar as febres/ inserir nas preces do nosso sorriso /brincando entre os campos das nossas idéias/ somos vagalumes a voar perdidos...a voar perdidos...
Chegou setembro e um vento na roseira espalhou a primavera... rompendo os muros da Casa de Maria, estávamos nós no Centro de Cultura. Entre coxias e camarins um espetáculo acontecia sendo presenciado por poucos privilegiados: eu, Cadu, Juliano e Otávio. Nossas vozes ecoando através de exercicios que ao que parece haviam sido esquecidos, ao menos por mim. A concentraçao, o cuidado...
A primavera chegou e marcamos nosso solsticio para 15 de Outubro. Precocemente brotaram Marias, Sofias e tantas mulheres e homens ocupando a Casa MaCRo, afinal um galo sozinho não tece uma manhã/ ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele/ e o lance a outro; de um outro galo/ que apanhe o grito de um galo antes/ e o lance a outro; e de outros galos/ que com muitos outros galos se cruzem/ os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos...
Antes de partir, como se já não tivesse me provado que ainda sou o mesmo menino/ que não dorme a planejar travessuras/ e fez do som da sua risada um hino, ela me escreve uma carta aberta a qual transcrevo abaixo pois não posso/devo guardar apenas comigo algo tão grandioso.
Forte Abraço Sue, segue em frente, sem medo, pois és águia, mas não esquecerá jamais o chão onde plantaste e colheu flores!

A Adriano, Gilberto e amigos da MaCRo,
Foi assim que cheguei...
Fui levada ao quintal e sentei com Adriano e Gilberto à sombra de uma mangueira, um limoeiro e um pé de acerola. E me convidaram para participar de um sonho. Como dizer não naquele tão lindo quintal? Como esconder meu desejo imediato de que aquele projeto desse certo? Disse sim. E dizer sim para um sonho é dizer sim para a vida, é abrir a porta que dá acesso a outros sonhos.
Adriano Pereira, ao me trazer para a Casa de Cultura Maria Cláudia Rodrigues, me trouxe para perto do lugar onde a vida pulsa em mim, me deixou livre e, quando vi, estava a arrumar o Quarto Crescente e a esperar pelo 15 de outubro de 2011. Estava dizendo sim para mais um sonho.
Companheiro como poucos, Adriano teve a tranquilidade de se manter ao meu lado diante dos meus medos e das minhas inseguranças. Andamos juntos naquela linha – a tão famosa linha! – que se estende entre o que fomos e o que poderemos ser, correndo o risco de cair em terra infértil e não germinar.
E assim tem sido meu amigo Adriano, um companheiro de travessia, na vida de muita gente. É um equilibrista, vive com o seu corpo inteiro. O que disse Paulo Freire se aplica à existência desse amigo: “ A paixão com que conheço, falo ou escrevo não diminuem o compromisso com que denuncio ou anuncio. Sou uma inteireza e não uma dicotomia. Não tenho uma parte esquemática, meticulosa, racionalista e outra desarticulada, imprecisa, querendo simplesmente bem ao mundo. Conheço com meu corpo todo, sentimentos, paixão. Razão também.”
Mas devo ainda falar do nosso belo jardineiro, Gilberto, que sabe nutrir cada flor dando o que ela precisa. Que nutre a rosa com a sua conversa delicada, o cacto com o seu silêncio, e as flores do mato com o seu olhar apaixonado. E se apaixona e se apaixona e se apaixona... e cuida, com boniteza, da terra... e atrai novas flores para o jardim... ao seu lado somos flores e cuidamos de flores.
Andamos então pelo alto como equilibristas e pela chão como jardineiros...
Temos o ar e a terra, o corpo e seu olhar, o equilibrista e o jardineiro... e Gilberto e Adriano são hoje os que diretamente regem a Casa de Cultura Maria Cláudia Rodrigues , e muitos outros são os que fazem parte desse sonho. Muitos vão chegando e vão sonhando. E vão fazendo o sonho real. Porque em terreno fértil a semente tende a germinar, não é Drico? E vem as flores e as borboletas (são tantas as borboletas!) e os frutos e as novas sementes.
A Adriano e a Gilberto, sobretudo a eles – mas aos outros também – agradeço por essa linda primavera que estamos vivendo juntos. E desejo toda a sabedoria necessária para que não esqueçamos de cuidar do jardim quando chegar o novo inverno.
Sigamos em frente com o ciclo de vida-morte-vida. Porque esse princípio é comum a tudo o que vive. Abramos os nossos sentidos para o que é natural. Festejemos juntos a passagem de cada estação, dando ao nosso jardim a liberdade de morrer para se manter vivo e de renascer quando for a hora.
Eu, que depois de passar por esse lugar especial não sou o que fui nem o que serei, que não sou raiz nem folha nem flor nem fruto, que estou sementinha voando no bico de um passarinho para novas paragens, levo comigo a lembrança do equilibrista e do jardineiro e dos muitos encontros vividos nessa primavera na Casa de Maria.
Obrigada, Casa de Cultura Maria Cláudia Rodrigues! Obrigada, Adriano! Obrigada, Gilberto!

Abraço forte e carinhoso,
Suelma